Sempre questionador
Paulo Cesar Bravo segue tecendo redes como quem escreve a história. Neto de pescador e de rendeira utiliza a
técnica de
rede artesanal para confeccionar
roupas e destaca a importância de dar novos usos e continuidade para antigas
tradições. “Quando se faz uma releitura estamos revivendo a origem, que é a própria vida. A desvalorização do artesanato, que é a
cultura local, é a desvalorização da própria vida e isso é muito triste, pois se vai perdendo a identidade, a qual está exatamente na produção local”, desabafa Paulo.
Paulo faz cachecóis, mantas e coletes para boutiques em São Paulo e Curitiba e conta que em
Florianópolis o trabalho com rede não é valorizado. “Aqui o artesanato é considerado como a sobra que você varreu do armário, quando deveria ser visto como retrato da nossa cultura”.


Professor de educação física e artesão, Paulo nasceu em Joinville e com um ano de idade veio para Floripa. A faculdade ele cursou em Joinville, depois morou dois anos em Curitiba e a experiência de morar fora o ensinou a valorizar ainda mais a cultura local. A técnica de redes aprendeu a 50 anos, na disciplina de Artes Manuais ministrada no Colégio de Aplicação de Florianópolis enquanto cursava o ensino fundamental. Quando estava na faculdade estagiou em um torneio de futebol de campo e viu como as redes eram caras. Duas redes pagavam um mês de estudos. “Passei a faculdade inteira fazendo redes desportivas, que usa a mesma técnica das redes de pesca usadas na Ilha”, lembra Paulo.
O artesão vê no descarte exagerado de redes desportivas um desperdício que gera danos ao meio ambiente e social. Alerta que as redes usadas para o vôlei e futebol pelas escolas da rede pública poderiam ser facilmente confeccionadas e consertadas pelas comunidades de pescadores da Ilha, que aprendem a técnica desde crianças, o que geraria
economia para o município além de
assistência social e
manutenção da tradição de rede artesanal.
A preocupação com a
cultura local vai além dos limites da cidade e se depara com o enredo da
Grande Rio. “Se o tema da escola de samba do primeiro grupo do Rio de Janeiro é Florianópolis um espaço deve ser aberto para que pessoas daqui mostrem um
artesanato original e a verdadeira cultura local”, afirma levantando a possibilidade do uso de redes feitas à máquina e rendas vindas do Nordeste Brasileiro.
Para Paulo a valorização da
cultura açoriana em Florianópolis depende de uma releitura constante das técnicas tradicionais, para que o trabalho local alcance seu lugar de destaque na produção de uma identidade cultural e ganhe força para combater a tendência de substituição do antigo pelo novo, pelo plástico, pelo prático e pelo que vem de fora.
As peças confeccionadas por Paulo na técnica de rede artesanal podem ser vistas na
Casa da Alfândega no Centro de Florianópolis.
Artista: Paulo Cesar Bravo
Arte: Técnica de rede artesanal
Contatos: paulocesar.bravo@uol.com.br
48 9624.0162