quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Na rede da tradição açoriana

Sempre questionador Paulo Cesar Bravo segue tecendo redes como quem escreve a história. Neto de pescador e de rendeira utiliza a técnica de rede artesanal para confeccionar roupas e destaca a importância de dar novos usos e continuidade para antigas tradições. “Quando se faz uma releitura estamos revivendo a origem, que é a própria vida. A desvalorização do artesanato, que é a cultura local, é a desvalorização da própria vida e isso é muito triste, pois se vai perdendo a identidade, a qual está exatamente na produção local”, desabafa Paulo.

Paulo faz cachecóis, mantas e coletes para boutiques em São Paulo e Curitiba e conta que em Florianópolis o trabalho com rede não é valorizado. “Aqui o artesanato é considerado como a sobra que você varreu do armário, quando deveria ser visto como retrato da nossa cultura”.

Professor de educação física e artesão, Paulo nasceu em Joinville e com um ano de idade veio para Floripa. A faculdade ele cursou em Joinville, depois morou dois anos em Curitiba e a experiência de morar fora o ensinou a valorizar ainda mais a cultura local. A técnica de redes aprendeu a 50 anos, na disciplina de Artes Manuais ministrada no Colégio de Aplicação de Florianópolis enquanto cursava o ensino fundamental. Quando estava na faculdade estagiou em um torneio de futebol de campo e viu como as redes eram caras. Duas redes pagavam um mês de estudos. “Passei a faculdade inteira fazendo redes desportivas, que usa a mesma técnica das redes de pesca usadas na Ilha”, lembra Paulo.

O artesão vê no descarte exagerado de redes desportivas um desperdício que gera danos ao meio ambiente e social. Alerta que as redes usadas para o vôlei e futebol pelas escolas da rede pública poderiam ser facilmente confeccionadas e consertadas pelas comunidades de pescadores da Ilha, que aprendem a técnica desde crianças, o que geraria economia para o município além de assistência social e manutenção da tradição de rede artesanal.

A preocupação com a cultura local vai além dos limites da cidade e se depara com o enredo da Grande Rio. “Se o tema da escola de samba do primeiro grupo do Rio de Janeiro é Florianópolis um espaço deve ser aberto para que pessoas daqui mostrem um artesanato original e a verdadeira cultura local”, afirma levantando a possibilidade do uso de redes feitas à máquina e rendas vindas do Nordeste Brasileiro.

Para Paulo a valorização da cultura açoriana em Florianópolis depende de uma releitura constante das técnicas tradicionais, para que o trabalho local alcance seu lugar de destaque na produção de uma identidade cultural e ganhe força para combater a tendência de substituição do antigo pelo novo, pelo plástico, pelo prático e pelo que vem de fora.

As peças confeccionadas por Paulo na técnica de rede artesanal podem ser vistas na Casa da Alfândega no Centro de Florianópolis.

Artista: Paulo Cesar Bravo
Arte: Técnica de rede artesanal
Contatos: paulocesar.bravo@uol.com.br
               48  9624.0162

1 comentários:

Pamela disse...

muito lindu esses estilos de roupas!!!
parabens sao poucas pessoas que tem esse dom!!!

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