Há seis meses o boi-de-mamão trouxe sua magia para a Feira de Arte e Artesanato, a Feirarte, que tem o apoio da Fundação Franklin Cascaes e acontece no Largo da Catedral Metropolitana de Florianópolis, todas as quartas e sextas-feiras das 9h às 18h.
Marcio Guimarães e Glauci Azlinskas, numa releitura da tradicional brincadeira do boi-de-mamão, constroem o boi e seus personagens usando como material básico o papel. Márcio nasceu na comunidade do Morro do Céu, no Morro da Cruz, onde a tradição era forte, e aos quatro anos já acompanhava os bois que passavam pelas ruas, no período de dezembro a fevereiro. “Era uma brincadeira que fazia parte do cotidiano”, relembra.
Integrando a última geração a sair com o boi-de-mamão nas ruas de Florianópolis, Márcio manteve a paixão pela brincadeira. Em 1988, com 15 anos de idade, acompanhou a perda de interesse da comunidade pelas apresentações. Desde então, o tradicional boi-de-mamão de Floripa só pode ser visto em apresentações pré-agendadas.
O boi que era confeccionado com a própria cabeça do animal, enterrada até ficar só no osso e depois coberta com pano, hoje ganha um molde em argila que é revestido de papel. Márcio lembra que sempre que ia montar um boi desmontava um guarda-roupas e o lençol, que cobria a estrutura rústica em madeira e compensado, era escolhido nos varais da vizinhança.Glauci foi apresentada à cultura há 11 anos e desde então compartilha a paixão pela brincadeira. Encantada com as possibilidades que o trabalho com o papel traz, explica que o material é leve e extremamente resistente. O acabamento e a decoração dos personagens também é toda feita com papel e não existe pintura no colorido que toma conta das peças.
A feira é a vitrine desse trabalho que pretende perpetuar a tradição do
boi-de-mamão. Além das peças de todos os tamanhos, inclusive o natural, ensinam nas escolas a moldagem do boi em papel, fazem decoração de ambientes e participam de eventos culturais.
Para 2010, com o apoio da Fundação Franklin Cascaes, Márcio e Glauci pretendem implantar na feira uma oficina aberta. Dentro da temática do folclore, querem ensinar a moldagem em papel machê e atrair as crianças e as comunidades ao Centro da cidade para, brincando, conhecerem as histórias do boi-de-mamão.
As músicas
Márcio e Glauci estão gravando um cd com músicas do boi-de-mamão que estará disponível em janeiro de 2010. Explicam que cada comunidade tem uma letra e um estilo próprio de tocar. Os grupos do interior da Ilha usavam violões, pois tinham características mais fortes da colonização açoriana e espanhola. No Centro a influência afro trouxe os instrumentos de percussão.
Márcio conta que as lixeiras da escola eram bons tambores e “a diretora da escola fez uma campanha com os pais para orientarem os filhos a não levarem mais as lixeiras para casa”.
Histórias do Boi
As brigas
As brigas de bois faziam parte da tradição. “Quando encontrávamos outro grupo nas ruas de Floripa sempre acontecia algum tipo de atrito”, conta Márcio, que já teve o boi seqüestrado várias vezes por grupos de faixa etária maior. Durante o dia todos interagiam e brincavam juntos, mas de noite a tradição ganhava corpo e os grupos disputavam as regiões de apresentação.
O tambor, que era feito artesanalmente de madeira, anunciava a chegada do boi-de-mamão. Pela quantidade de batidas e a intensidade sabiam onde o outro grupo estava. Márcio conta que para intimidar o adversário pegavam o maior número de crianças que conseguiam e entregavam um tambor para cada uma delas. Batiam com toda a força que tinham. Era uma forma de defesa para dar a impressão de um grupo grande. Isso intimidava o grupo adversário.
Pra quem não viveu a época do boi-de-mamão nas ruas da cidade, era assim. De dezembro a fevereiro os moradores de Florianópolis já esperavam as batidas dos tambores que vinham anunciando a chegada dos grupos de bois. A criançada, que hoje fica na frente dos vídeos games, brincava na rua e já corriam para avisar aos pais. O grupo parava na frente de cada casa e convidava o dono para assistir à dança, mediante o pagamento, que era negociado no meio da apresentação. Quando o boi morria o dono da casa pagava o Seu Doutor, que ressuscitava o boi e a apresentação então continuava. Assim o grupo percorria as ruas e a cada 60 metros iniciava uma nova apresentação. A criançada assistia a tudo repetidamente sem cansar, acompanhando o grupo até onde as mães permitiam. Nunca agrupavam menos de 30 pessoas. Tempos bons.
Na mala do Seu Doutor tinha martelo, serrote e pregos. Como eram as crianças que construíam os personagens, sem ajuda de adultos, algumas partes se desprendiam, e na rua mesmo faziam os consertos. “Certa vez a cabeça da Maricota atravessou a janela de uma casa”, conta Márcio.
O gambá
Numa apresentação no bairro Santa Mônica, o povo todo reunido em círculo para ver o boi-de-mamão, o cavalinho fazia um peso extra na cabeça, mas o cavaleiro contrabalançava e seguia fazendo a dança. Era um gambá que tinha se alojado dentro da cabeça do cavalo e ninguém sabia. Não demorou muito para o bicho aparecer. No meio da apresentação, ele saiu de dentro da cabeça do cavalinho, subiu pelo peito da criança que dançava o personagem e pulou no chão assustado. Foi uma gritaria. O gambá não conseguia fugir, pois ia de encontro às pessoas que circulavam a apresentação. Márcio conta que o jeito foi improvisar: incluiu o bicho na música e convenceu as pessoas que tudo era parte do espetáculo.
As senhorinhas
Durante o dia as crianças criavam algumas inimizades com as senhoras da vizinhança, pelas bolas que quebravam as plantas nos jardins alheios e pelas telhas quebradas ao subir nas casas atrás das pipas. Eram xingados de vagabundos e malandros, “mas éramos só crianças”, desabafa Márcio. Como os pais não permitiam que eles respondessem, era na dança do boi que promoviam pequenas vinganças. Quando dançavam para essas senhoras, acrescentavam à música a seguinte estrofe:
Olé, olé, olé, olé, olá,
Arreda do caminho que a bernunça quer passar.
Atirei um limão n’água de maduro foi ao fundo,
Tirei carta de malandro e certidão de vagabundo.
Era uma forma lúdica e saudável das crianças protestarem.
Mais fotos você vê no flickr do Floripa Cultura
Artistas: Márcio Guimarães e Glauci Azlinskas
Arte: Boi-de-mamão em papel machê
Contatos: www.boidemamaofestas.com.br
boi de mamaofestas@hotmail.com
48 9969.2553 ou 9927.5303




2 comentários:
Parabéns pelo site.
Iniciativas como estas, só contribuem e nos estimulam a trabalhar com arte.
Marcio
Parabéns pelo belo trabalho do Marcio, vivenciei quase todos os causos contados por ele nesta matéria, pena que nossas autoridades não valorizam como deveriam esta grande manifestação folclórica/cultural, mas graças ao Marcio e outros abnegados podemos refiver nossa saudosa infancia.
um abraço Rogerio(Guega)
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